Giro Cultural: A redenção nos cinemas e o adeus a um ícone da moda
A mais nova aposta da Searchlight Pictures, “Quem Fizer Ganha”, acaba de desembarcar nas salas de cinema trazendo uma daquelas histórias reais tão inusitadas que parecem ficção. Sob a direção peculiar de Taika Waititi, a produção conta com Michael Fassbender vivendo Thomas Rogen, um treinador de futebol enviado para uma missão quase impossível: comandar a seleção da Samoa Americana. O time carrega o fardo de ter sofrido a maior goleada já registrada na história das eliminatórias para uma Copa do Mundo, um placar elástico e humilhante de 31 a 0 contra a Austrália.
O peso de uma derrota histórica
Para entender o contexto, é preciso voltar a 11 de abril de 2001. No Coffs Harbour International Stadium, em Nova Gales do Sul, o que se viu foi um massacre esportivo. Ainda que a superioridade australiana fosse esperada, as cerca de 3 mil pessoas presentes testemunharam a quebra de recordes mundiais. O atacante Archie Thompson balançou as redes 13 vezes, tornando-se o maior artilheiro em uma única partida internacional, seguido por seu colega David Zdrilic, com oito gols.
A seleção da pequena ilha do Pacífico virou motivo de piada global e amargou a última posição no ranking da FIFA por uma década. A virada de chave, retratada no filme, só aconteceu em novembro de 2011, quando a equipe finalmente conquistou sua primeira vitória ao bater Tonga por 2 a 1. Foi essa narrativa de fracasso retumbante seguido de superação que capturou a atenção de Waititi. O cineasta, vencedor do Oscar, afirmou que a inspiração estava ali o tempo todo, apenas esperando para ser contada.
Representatividade em campo
Além do aspecto esportivo, o longa destaca a figura de Jaiyah Saelua, interpretada pela atriz não-binária Kaimana. Jaiyah é uma Fa’afafine, termo da cultura samoana para pessoas de gênero fluido, onde dois espíritos coexistem. Ela fez história como a primeira jogadora transgênero a atuar em uma eliminatória da Copa do Mundo da FIFA. O reconhecimento de sua importância foi tanto que, em 2016, a própria FIFA a convidou para integrar o júri do “Prêmio Diversidade”. Segundo Kaimana, a construção da personagem foi orgânica, dada a semelhança entre sua vida e a da atleta real.
O fim de uma era na alta costura
Enquanto as telas celebram a resiliência humana, o mundo da moda veste o luto com a notícia do falecimento de Valentino Garavani, na última segunda-feira, aos 93 anos. Se muitas palavras foram usadas para descrever seu trabalho — elegante, feminino, glamoroso —, talvez “rico” seja a que melhor defina sua essência, embora de uma forma complexa. Valentino moldou a percepção do que significava ser rico na segunda metade do século XX, talvez mais do que qualquer figura da alta sociedade.
Suas criações não flertavam com o despojado. Eram roupas com estrutura, etiqueta e uma certa altivez, exigindo postura de quem as vestia. O estilista abominava o grunge e a minissaia; acreditava no poder de um babado bem posicionado e na estratégia do “bom gosto” como uma armadura de tafetá e chiffon contra o mundo exterior. Sua cor de assinatura, o vermelho rubi, e seus trajes eram pensados para grandes ocasiões, fossem almoços beneficentes ou noites de gala no La Scala.
Um legado de luxo e estilo de vida
Valentino construiu um império baseado em sua visão estética e na estratégia de seu parceiro, Giancarlo Giammetti. Seu círculo fiel, carinhosamente apelidado de “Val’s gals”, incluía nomes como Jacqueline Kennedy — que vestiu a marca em seu casamento com Onassis —, a Rainha Máxima da Holanda, Anne Hathaway e Gwyneth Paltrow. Elas confiavam nele porque Valentino não apenas desenhava vestidos, mas projetava um reino inteiro.
Esse universo particular incluía cinco residências e um iate, com destaque para o Château de Wideville, nos arredores de Paris, antiga morada de uma amante de Luís XIV. Valentino vivia exatamente como projetava: sempre de terno e gravata, com uma pele bronzeada, cercado por seus cinco pugs e uma equipe atenta. Mesmo após se aposentar em 2008, ele continuou sendo uma figura onipresente nos tapetes vermelhos de Nova York a Londres, provando que sua vida era, em si mesma, sua maior declaração de estilo. Uma mesa de jantar impecável, dizia ele, era uma forma de respeito aos convidados e a si mesmo — uma filosofia que ele levou consigo até o fim.