A Porrada Virou Espetáculo: De Dojos no Vale a Reality Shows Intergalácticos
A gente já se acostumou com o fato de que a nostalgia vende, mas o que as plataformas de streaming têm feito recentemente vai um pouco além de simplesmente reciclar o passado ou criar cenários de combate tradicionais. A quinta temporada de Cobra Kai chegou quebrando a porta na Netflix, cravando o número 1 global em um piscar de olhos e batendo quase 106,7 milhões de horas assistidas logo na primeira semana. O curioso aqui não é só ver Daniel LaRusso (Ralph Macchio) pedindo ajuda a figuras do passado ou Johnny Lawrence (William Zabka) tentando, aos trancos e barrancos, consertar os danos que causou longe do karatê. A grande sacada dessa expansão do império do Terry Silver — que quer impor o estilo “sem compaixão” a qualquer custo com o Kreese mofando na cadeia — foi injetar sangue real de lutadores no tatame.
Quem acompanha MMA pescou a referência rápido: a série trouxe astros do UFC para o elenco. Tyron Woodley, ex-campeão da categoria dos meio-médios, encarna o mestre Odell, um dos novos capangas de Silver que aparece em metade dos episódios da temporada. E ele não está sozinho nessa tomada de território pelo Vale. Stephen Thompson, outro peso meio-médio do UFC e um cara que tem o karatê como especialidade raiz, faz o mestre Morozov. O detalhe que deixa tudo mais interessante para quem é do meio da luta é que Thompson e Woodley já bateram de frente no octógono de verdade e agora dividem o mesmo plano de expansão na ficção. Para fechar a trinca de profissionais, temos Eryk Anders (peso médio) no papel de Vicente, um casca-grossa mexicano do submundo criminoso que cruza o caminho de Johnny na busca por Hector Salazar, o pai de Miguel (Xolo Maridueña). Uma luta que inclusive rendeu bastante no YouTube oficial da plataforma.
Esse apetite por colocar a sobrevivência e a pancadaria no centro das atenções reflete muito o que a indústria está buscando para manter o público engajado. A Netflix entende bem esse ecossistema, seja anunciando seus megaeventos mundiais como o TUDUM para setembro, seja colhendo elogios da crítica com novos filmes de guerra, tudo isso enquanto o mercado lá fora continua instável com o cancelamento de projetos de outras empresas, como aquele engavetamento de Batgirl comentado até pelo Michael Keaton. Mas se a gigante do streaming aposta no realismo físico de lutadores profissionais em um torneio regional, a Peacock resolveu apertar o botão do absurdo total explorando a mesmíssima essência: o combate como puro entretenimento.
É aí que entra Dungeon Crawler Carl. A Peacock acabou de encomendar o projeto direto para série em formato live-action, baseado na popular franquia de livros do autor Matt Dinnaman. Se em Cobra Kai a humanidade se resolve no tatame, aqui a coisa foi para o espaço de vez: uma invasão alienígena aniquilou quase todo mundo e os poucos sobreviventes foram forçados a participar de um game show intergaláctico sádico para lutar por suas vidas.
A produção está nas mãos da Universal Global Television e da Fuzzy Door, produtora do Seth MacFarlane (que garantiu os direitos dos livros agora em 2024). O roteiro e a produção executiva vão ser tocados pelo Chris Yost, o mesmo cara por trás de produções como Thor: Ragnarok. O próprio Dinnaman já correu para o Instagram para comemorar o sinal verde oficial da Peacock, confirmando que a equipe inteira está empolgada e que ele e Yost vão comandar um painel sobre a série na Comic-Con de julho.
O mais louco é que o protagonista, um veterano da Guarda Costeira chamado Carl, tenta sobreviver a esse apocalipse televisivo completamente descalço. E a sua parceira nessa jornada contra monstros, alienígenas, sobreviventes rivais e uma Inteligência Artificial totalmente surtada não é uma guerreira habilidosa, e sim a gata de estimação premiada de sua ex-namorada: a Princesa Donut, que fala, usa uma tiara e é absurdamente egocêntrica.
No fim das contas, a premissa de Dungeon Crawler Carl resume muito bem a direção que o entretenimento tem tomado, deixando claro que, na televisão do fim do mundo, “a sobrevivência é opcional, mas o entretenimento não”. Seja assistindo a um ex-campeão do UFC dando chute em adolescentes na Califórnia ou acompanhando um cara descalço lutando contra aliens ao lado de uma gata falante, o público parece querer descobrir, cada vez mais, até onde as regras do jogo podem ser esticadas.